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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Consumismo

Consumo sustentável:
uma mudança na
cultura política?

Profa. Dra. Fátima Portilho (UFRRJ/CPDA)

Reunión Plataforma Regional de Educación  para el Consumo Sustentable
Buenos Aires 30 de junio y 1 de  julio 2010
Sociologia e Antropologia do Consumo


Estudo sobre o fenômeno do 
consumo nas sociedades e 
culturas contemporâneas


Desde o século XVII  consumo é associado a termos como: 
 
individualismo, hedonismo, lassidão moral, superficialidade, materialismo, falta de autenticidade, exclusão, necessidades supérfluas, desagregação dos laços societários, decadência moral etc.
 



Não é a atividade de consumo  que é superficial, mas sim nossas tentativas  de compreendê-la.

(Daniel Miller)
Transformações das sociedades contemporâneas  e suas implicações para o consumo 
Situação paradoxal contemporânea:

Cultura do excesso
X
Elogio da moderação
(retorno da saúde, da prevenção,  equilíbrio, natureza, moral, ética, religiões  orientais etc.)

Gilles Lipovetsky
Consumir é utilizar elementos  da cultura material para nossa reprodução  física e social.




O que é consumo?
Por que consumimos?

Para que consumimos?

O que fazemos com o que  consumimos?
  • Construção de laços sociais
  • Construção e fortalecimento de identidade
  • Comunicação
  • Pertencimento e diferenciação social
  • Hostilidade Cultural
  • Produção e reprodução de valores



Usos do consumo
Os bens, em todas as culturas,  funcionam como:
Um “novo” uso social do  consumo

Percepção e o uso das práticas  de consumo como forma:

  •  de pressão política;
  •  de materializar valores e preocupações
   ambientais e sociais.

O ato de comprar “se transformou  num meio de conferir objetividade a nossos  valores”   (Daniel Miller,2002)


Transformações na esfera do  consumo

Ato essencialmente privado




Ato visto como tendo conseqüências  públicas e que tem sua origem na  esfera pública
Karl Marx.


Transformações na esfera do  consumo

Gosto individual e restrições  étnicas, religiosas e de classe



Responsabilidade sobre as conseqüências  das ações e escolhas de consumo


Transformações na esfera do  consumo

Individualismo, insaciabilidade e superficialidade...




Cidadania e participação política


Estaríamos caminhando
para uma 
“Nova sociedade de consumo”?

Problema sociológico

Acusado como o principal responsável  pelos problemas sociais (individualidade, despolitização  etc.) e ambientais poderá o consumo ser  a solução para os problemas que gerou?
A escolha de produtos e de  produtores baseada em considerações éticas  e/ou políticas quando um consumidor quer  e acredita que, dessa forma, é possível  mudar práticas institucionais ou de mercado.

(Micheletti et al, 2003; Stolle et al, 2005; Portilho, 2008; Halkier & Holm, 2008).

Mas o que é consumo político?
Consumo político não é um  fenômeno inteiramente novo

Boicotes aos ônibus no Alabama/EUA em  protesto contra a segregação racial (1955)
1) Boicotes 
2) 
Buycotts
3
) Compras coletivas
4) Uso eficiente de bens e serviços
5) Ações comunicativas
6) Ações educativas
  

Ações de Consumo Político
Ações de boicotes: 
”não compre para fazê-los modificar suas formas de produção ou suas políticas”


Uso eficiente de bens e serviços (água, energia, comida, transportes etc.)  
Fenômeno do consumo político



Ampliação do campo político
Mudança na cultura política


Se o conceito de política  significava
deixar a esfera privada para  dedicar-se
à pública, surge agora a necessidade
de permitir a invasão do  político na
esfera privada:

Agenda da mesa da cozinha
Votar com a carteira
Votar com o garfo

Ampliação do campo político
Mudança na cultura política



  •  Desconfiança, descrédito ou desinteresse  pelas ações políticas convencionais


  •  Crença na responsabilidade de todos
  (negociação de responsabilidades)


  •  Reposicionamento do político  novas
   esferas sociais passam a constituir uma
   nova cultura política



Com a degradação da política  convencional e a descrença em muitas  instituições sociais, surgem, fortalecidos, outros  modos de participação política.

Néstor Garcia Canclini

O consumo é uma atividade  que 
envolve tomar decisões políticas  e 
morais praticamente todos os dias.
 Daniel Miller
Possibilidades explicativas

  • Sub-políticas  política direta, à margem e além dos Estados-Nação; esfera não-institucional do político (Ülrick Beck)



  • Teoria Neo-moderna  as ações radicais e coletivistas dos anos 60 e 70 reaparecem nos anos 90 como ações romântico-individualistas; ação de indivíduos reais e não de atores históricos coletivos (Jeffrey Alexander)
Cinco questões de pesquisa:

  • Como medir o consumo político?
  • Quem é o consumidor político? (indicadores micro-sociológicos)
  • Qual a orientação política, os valores e o enraizamento social?
  • Reduz, substitui ou complementa formas de participação maiscoletivistas?
  • Qual é o caráter político do consumo político?
Pesquisa brasileira  analisar percepções, interesses, confiança institucional e práticas políticas de jovens brasileiros, incluindo o consumo político

  • Survey representativo nacional com jovens entre 17 e 29 anos, das classes de renda A, B, C e D;
  • Grupo Focal
  • Pesquisa etnográfica

Autores:
Fátima Portilho (UFRRJ/CPDA)
Lívia Barbosa (ESPM/CAEPM)
John Wilkinson (UFRRJ/CPDA)
Obrigada!





“Political Consumption – Politics in a New Era and Arena”

Pesquisa piloto trans-nacional do  tipo survey que mede formas de participação política e confiança nas instituições, incluindo consumo político.
 1015  jovens, estudantes universitários, em três  países: Suécia, Canadá e Bélgica

Michele Micheletti (Karlstad University  - Suécia)
Dietlind Stolle (McGill University - Canadá)
Marc Hooghe (Cathilic University of Leuven - Bélgica) 
 Stolle et al (2005)
Algumas conclusões da pesquisa  na
Suécia, Canadá e Bélgica

  • Buycott é mais freqüente do que boicote
  • O consumo político é um fenômeno consistente nesses paises
  • Suecos mais do que canadenses e mais do que belgas
  • Mulheres são mais inclinadas a participar deste tipo de ação
  • Religião e status educacional dos pais não teve efeito
  • Renda mais alta da família  menos participação via consumo
Algumas conclusões da pesquisa  na
Suécia, Canadá e Bélgica

  • São enraizados em redes e associações
  • Ser membro de partido político, participar nas eleições estudantis etc. não sãopreocupações importantes
  • Não se engajam nem mais nem menos do que outras pessoas nas formas clássicas de participação
  • Têm mais experiências e interesses em formas não-convencionais
  • São céticos quanto à efetividade das formas convencionais e têm menos confiança nas instituições políticas estabelecidas
  • Acreditam na efetividade de suas ações não-convencionais
Algumas conclusões da pesquisa  na
Suécia, Canadá e Bélgica

  • O consumo político não se revela como um fenômeno inteiramente novo, mas como parte de um leque de possibilidades de ativismo que amplia o campo político
  • Criticam e não confiam em nenhuma forma de poder e autoridade institucionalizada
  • Relacionado a valores pós-materialistas
  • Se preocupam menos em influenciar governos e mais as corporações, organizações internacionais e práticas gerais de trabalho e produção




  • Luta pela Independência Americana  Séc. XVIII

  • O primeiro boicote  trabalhadores irlandeses em 1880 contra o administrador dos arrendamento dos campos agrícolas, capitão Charles Cunningham Boycott

  • Movimento operário de Buenos Aires, entre 1880 e 1920

  • Movimento operário de Seattle/EUA, entre 1919 e 1929

  • Brasil  Revolta das Barcas, no Rio de Janeiro em 1959

  • Brasil  Movimento das Donas de Casa de São Paulo e Belo Horizonte, em 1979


Estudos históricos mostram que muitas lutas de trabalhadores extrapolou as tradicionais ações no local de trabalho para ações de uso político do consumo:
Casos recentes e bem
sucedidos de boicotes 
 Boicotes contra a Nestlé em protesto contra campanhas que pregavam a substituição do leite materno por fórmulas industrializadas no terceiro mundo (Baby Milk Boycott) (1977-1984)
Boicotes contra a Nike em  protesto pelo trabalho infantil usado na  produção de bolas na Indonésia (Locke,  2003)

Boicotes contra as 
Sweatshops americanas em protesto contra as péssimas condições de trabalho de imigrantes (Adams, 2002)
Mudanças discursivas

  • A partir da década de 90  impacto          do consumo

  •  Até a década de 70  crescimento
    populacional

  •  A partir da década de 70  impacto        da produção
O “consumidor responsável”

  •  Manifesta grande envolvimento com
   questões socioambientais

  •  Se auto-atribui responsabilidades e
   deveres com relação às mesmas

  •  Se auto-identifica como um ator social
   importante

  •  Acredita na importância e eficácia de suas
   ações
Dilemas:
quem são os responsáveis?

Os consumidores lidam com dilemas  diários relacionados às responsabilidades sociais  e ambientais, respondendo diferentemente a  esses dilemas.
  • Alguns rejeitam totalmente
   (Transferência de responsabilidade)

  • Alguns incorporam totalmente
   (Auto-atribuição de responsabilidade)

  • Alguns negociam
   (Co-responsabilidade)

Politização e ambientalização
do consumo
Politização e ambientalização do  consumo


Percepção e uso das práticas  de consumo como forma de materializar  valores e preocupações sociais e ambientais. 


A participação na esfera pública  e a ação política passam a ser  vividas também através do consumo (romantismo-individualista).

Padrões de consumo moralmente indefensáveis

Ascetismo X Hedonismo

O que é uma vida ideal?
Qual é o estilo de vida  ideal?
O quanto se deve gastar?
Sociedade de Consumo

ESFERA DA PRODUÇÃO

ESFERA DO CONSUMO

O consumo preenche uma função maior  do que a simples satisfação de necessidades  materiais.
POLITIZAÇÃO
construção do cidadão na esfera do  consumo

DESPOLITIZAÇÃO redução do cidadão à condição de consumidor

SOCIEDADE DE CONSUMO
POLITIZAÇÃO E AMBIENTALIZAÇÃO DO  CONSUMO

As práticas de
consumo se tornam
social e ambientalmente relevantes

As pessoas comuns são estimuladas
e cobradas a incorporar
responsabilidades ambientais e sociais
em suas preocupações e experiências
da vida diária. 
Preocupação ambiental no consumo

Alguns rejeitam totalmente

Alguns incorporam totalmente

Alguns negociam (co-responsabilidade)
Politização do consumo

Sob certas condições, o consumo 
pode se tornar uma atividade politizada.

Consumir é participar de um cenário  de disputas por aquilo que a sociedade  produz e pelos modos de usá-lo.
POLITIZAÇÃO DO CONSUMO

  •  BOICOTE

  •  COOPERATIVA DE CONSUMO

  •  ROTULAGEM

  •  CONSUMO SOLIDÁRIO/ÉTICO
Consumo e cidadania devem ser
vistos de forma conjunta e insepar
ável

Ambos dão sentido de pertencimento  e identidade

AGENDA DA MESA DA COZINHA
Na atividade de consumo enviamos
mensagens políticas a respeito da forma
como vemos o mundo.

Na atividade de consumo são construídas  e
desenvolvidas as identidades sociais.

Na atividade de consumo, sentimos que pertencemos a uma coletividade.
O consumo sustentável é ambíguo:

  • redução X expansão da cidadania

  • ator social?

  • racionalização e controle sobre a vida

  • reapropriação de conhecimentos e competências nas práticas da vida diária
O debate sobre meio ambiente  e consumo envolve repensar a relação  entre
 
vida pública
e
vida privada 

envolvendo questões de ambas as esferas e recuperando as pontes entre elas.
A estratégia política do consumo
sustentável poderia funcionar,
então, como uma maneira de
trazer problemas coletivos para
a vida pessoal, aproximando as
esferas privada e pública.

Uma vez consumidores, sejamos
consumidores da oposição
O uso político do consumo  não é novidade...

1955  Montgomery/Alabama - Sul dos EUA

A costureira negra Rosa Parks entrou num ônibus e sentou-se no banco da frente, local proibido aos negros pelas leis segregacionistas do estado. Intimada a dar seu lugar a um passageiro branco e sentar-se no fundo do veículo, recusou-se, sendo presa, julgada e condenada. Sua prisão deflagrou uma onda de manifestações de apoio e revolta, além do boicote da população aos transportes urbanos que durou 382 dias, quase levando à falência o sistema urbano de transportes, e acabando somente quando a legislação que separava brancos e negros nos ônibus foi extinta.
  • Luta pela Independência Americana  Séc. XVIII

  • O primeiro boicote  trabalhadores irlandeses em 1880 contra o administrador dos arrendamento dos campos agrícolas, capitão Charles Cunningham Boycott

  • Movimento operário de Buenos Aires - entre 1880 e 1920

  • Movimento operário de Seattle/EUA - entre 1919 e 1929

  • Brasil  Movimento das Donas de Casa de São Paulo e Belo Horizonte, em 1979

Diversos exemplos históricos mostram que a luta de trabalhadores extrapolou as tradicionais ações no local de trabalho para ações de politização do consumo:
Possibilidades da politização do consumo

  • Expansão da cidadania  sentimentos de co-responsabilidade; participação em redes e grupos de consumidores; sentimento de pertencimento a uma comunidade imaginária

  • Reapropriação de conhecimentos e competências nas práticas da vida diária  maior autonomia dos consumidores
Consumo e cidadania devem ser
vistos de forma conjunta e insepar
ável

Ambos dão sentido de pertencimento  e identidade

Por que?
  •  Desconfiança, descrédito ou desinteresse  pelas ações políticas tradicionais

  •  Crença na responsabilidade dos
  consumidores

  •  Crença na possibilidade de se opor à
   lógica dominante, afirmando-se como
   sujeito que age e escolhe

  •  Reposicionamento do político  novas
   esferas sociais passam a constituir uma
   nova cultura política
A atividade de “sair para  fazer compras” pode ser vivida como  uma
prática cultural oposicional

O ato de compra é vivido  como empoderamento, autonomia e participação
Se o conceito de política  significava deixar a esfera privada para  dedicar-se à pública, surge agora a  necessidade de permitir a invasão do  político na esfera privada:

AGENDA DA MESA DA COZINHA
Consumir é utilizar elementos  da cultura material como forma de construção  de laços sociais e de identidades, pertencimento,  diferenciação social e hostilidade cultural




Usos do consumo
Sociedade de Consumo

Marxista
(Baudrillard, Jameson, Bauman)

superficialidade, individualidade, materialismo, perda de autonomia, perda de interesse pelo coletivo, redução do cidadão à esfera do consumo,estetização e comoditização da realidade, alienação etc.
Culturalista  usos sociais do consumo

(Pierre Bourdieu, Mary Douglas, Daniel Miller, Néstor Garcia Canclini, Colin Campbell, Alan Warde, Lívia Barbosa)

reprodução social, distinção social, pertencimento, identidade, hostilidade, sociabilidade, subjetividade, estilo de vida, autonomia, resistência, cidadania, participação política etc.


Sociedade de Consumo




Expansão da Sociedade de Consumo

a) vítima, passividade, alienação,  manipulação, necessidades artificiais etc.

É exploração e manipulação?
É escolha soberana e autoridade?
É “empoderamento” e resistência?

b) soberania, poder, autoridade,  escolha, autenticidade etc.

c) resistência, direitos, poder,  cidadania, 
   consciência etc.
  • O consumo não é uma atividade neutra

  • As mercadorias são neutras

  • O consumo não ocupa uma arena privada e despolitizada

  • O consumo é uma atividade que envolve tomar decisões políticas e morais praticamente todos os dias
Estudos do consumo no Brasil 
political food (dimensão política  da alimentação e da comida)
Politização e ambientalização don  consumo
Novos repertórios de ação política
Consumo pet (orçamento familiar,  afeto entre espécies)
Visao moralizante do consumo
Economico e social
Fronteiras:
Boicotes a marcas, produtos e  governos


Movimentos de Defesa dos Direitos  dos Consumidores

  • Consumerismo
  • Esteira dos movimentos de ampliação dos direitos
  • Reação às desigualdades entre fornecedores e consumidores
  • Os direitos dos consumidores são os direitos dos cidadãos em suas relações com omercado
  • Atuação na esfera jurídica

Ex.: Consumers International, IDEC, ___
Movimentos Anti-Consumo

  • Esteira dos movimentos anti-capitalismo e anti-globalização
  • Crítica ética, social e ambiental ao consumismo
  • Crítica às Sociedades de Consumo e à fraca relação entre consumo e felicidade ourealização humana
  • Crítica ao excesso de trabalho para um excesso de consumo que não trazfelicidade

Ex.: “No logo”, Simplicidade voluntária, Adbuster, Dia
de não comprar nada, Dia  sem carro etc.
Movimentos Pró-Consumo Responsável

  • Esteira dos movimentos de ampliação da cidadania
  • Agenda da Mesa da Cozinha
  • Auto-atribuição de responsabilidades
  • Os consumidores são vistos como atores importantes e decisivos

Ex.: Faces do Brasil, Instituto  Kairós, 
Instituto Akatu, Ethical Consumer
ARGUMENTO CENTRAL 
Ações de consumo político deveriam ser incluídas em pesquisas e 
surveys que se dedicam a compreender e a mensurar o envolvimento e a participação política. 
 
Questões teóricas

 1. Ambigüidades do consumo político
    •  Tese da despolitização
    •  Tese da politização 
2. Ambigüidades da cultura política
    •  Tese do declínio do campo político
    •  Tese da expansão do campo  político
Chaves explicativas

  • Sociologia do Risco (Beck)  riscos longínquos são vividos na vida cotidiana que se torna a esfera de novos conflitos e formas de ação política

  • Destradicionalização (Giddens)  os indivíduos devem refletir e filtrar as informações sobre todos os aspectos rotineiros da vida cotidiana e tomar decisões com base nessas reflexões e não na tradição

  • Transformação da intimidade (Giddens)  relação dialética entre tendências globalizantes e eventos localizados na esfera cotidiana
Boicotes a marcas, produtos e  governos

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