AUGUSTO COMTE.
Comte, cujo nome completo
era Isidore-Auguste-Marie-François-Xavier Comte, nasceu em 19 de janeiro de
1798, em Montpellier, e faleceu em 5 de setembro de 1857, em Paris. Filósofo e
auto-proclamado líder religioso, deu à ciência da Sociologia seu nome e estabeleceu
a nova disciplina em uma forma sistemática. Foi aluno da célebre École
Polytechnique, uma escola em Paris fundada em 1794 onde se ensinava a ciência e
o pensamento mais avançados da época. De família pobre, sustentou seus estudos
com o ensino ocasional da matemática e oportunidades no jornalismo.
Um de seus primeiros
empregos foi o de secretário do Conde Henri de Saint-Simon, o primeiro filósofo
a ver claramente a importância da organização econômica na sociedade moderna, e
cujas idéias Comte absorveu, sistematizou com um estilo pessoal e difundiu. Comte
foi apresentado ao filósofo, então diretor do periódico Industrie, no verão de
1817. Saint-Simon, um homem de fértil, mas tumultuada e desordenada
criatividade, então quase sessenta anos mais velho que Comte, foi atraído pelo
jovem brilhante que possuia a capacidade treinada e metódica que lhe faltava.
Comte tornou-se seu secretário e colaborador próximo, na preparação de seus
últimos trabalhos. Quando Saint-Simon experimentou problemas financeiros, Comte
permaneceu sem pagamento tanto por razões intelectuais como pela esperanças da
recompensa futura.
Os esboços e os ensaios que
Comte escreveu durante os anos da associação próxima com Saint-Simon,especialmente
entre 1819 e 1824, mostram inequivocamente a influência do mestre. Esses
primeiros trabalhos já contêm o núcleo de todas suas idéias principais, mesmo
as mais tardias. Em 1824 Comte desentendeu-se com Saint-Simon por questões de
autoria legítima de ensaios que Comte devia publicar.
A solução, que Comte
considerou injusta, foi que cem cópias do trabalho saíram sob o nome de Comte, enquanto
mil cópias, intituladas Catechisme des industriels indicavam a autoria de Henri
de Saint-Simon. Outra causa do rompimento foi, ironicamente, Comte desdenhar a
idéia de um paradigma religioso no projeto de Saint Simon, ele, Comte, que
depois haveria de adotar essa idéia proclamando a si mesmo como sumo sacerdote
da Humanidade.
Em fevereiro 1825 Comte se
casou com Caroline Massin, proprietária de uma pequena livraria, uma moça que
ele já conhecia. Comte a achava forte e inteligente, mas depois taxou-a de
ambiciosa e desprovida de afetividade. O casamento foi sempre tumultuado por
motivos financeiros, uma vez que Comte não conseguia uma posição com salário
fixo e contava apenas com os rendimentos das aulas particulares e alguma renda
adicional por colaborações a jornais, mais freqüentemente para o Producteur, um
jornal fundado pelos filhos espirituais de Saint-Simon após a morte do mestre.
Depois de se afastar de
Saint Simon, a principal preocupação de Comte tornou-se a elaboração de sua filosofia
positiva. Não tendo nenhuma cadeira oficial da qual expor suas teorias, decidiu
oferecer um curso particular que os interessados subscreveriam adiantado, e
onde divulgaria sua Summa do conhecimento positivo. O curso abriu em abril,
1826, com a presença de alguns curiosos ilustres como Alexander von Humboldt,
diversos membros da academia das ciências, o economista Charles Dunoyer, o duque
Napoleon de Montebello, e Hippolyte Carnot, filho do organizador dos exércitos
revolucionários e irmão do cientista Sadi Carnot, e vários estudantes da École
Polytechnique.
Comte deu apenas três aulas
e foi obrigado a interromper o curso devido a um colapso nervoso. Seu mal foi
diagnosticado como " mania " no hospital do famoso Dr. Esquirol,
autor de um tratado sobre a doença. Ele próprio submeteu Comte a um tratamento
com banhos de água fria e sangrias. Apesar de não receber alta, Comte foi
levado para casa por Caroline após o retorno para casa, Comte caiu em um estado
melancólico profundo, e tentou mesmo o suicídio jogando-se no rio Sena. Somente
em agosto 1828 logrou sair de sua letargia. O curso das conferências foi recomeçado em 1829, e Comte ficou satisfeito
outra vez por encontrar na audiência diversos nomes de grandes das ciências e
das letras.
Durante os anos 1830-1842,
quando escreveu sua obra prima, Cours de philosophie positive, Comte continuou
a viver miseravelmente à margem do mundo acadêmico. Todas as tentativas de ser
apontado de para uma cadeira no École Polytechnique ou para uma posição na
Academia das ciências ou na faculdade de França foram infrutíferas. Controlou
somente em 1832 a ser apontado assistente de "analyse et de
mecanique" no École; cinco anos mais tarde foi dado também as posições do
examinador externo para a mesma escola. A primeira posição trouxe valiosos dois
mil francos e o segundo um pouco mais.
Mas era pouco para as
despesas que tinha com a esposa e por isso continuou com as aulas particulares para
escapar da faixa de pobreza. Discurso preliminar sobre o espírito positivo Durante
os anos da concentração intensa quando escreveu o Cours, Comte foi incomodado
não somente por dificuldades financeiras e as frustradas tentativas de emprego
acadêmico. Também sofreu críticas do mundo científico por parte de importantes
figuras que o ridicularizavam pela sua pretensão de submeter ao seu sistema
todas as ciências. A mágoa agravou seu estado psicológico. Por razões "de
higiene cerebral", decidiu-se, em 1838, a não ler mais uma linha de
qualquer trabalho científico, limitando-se à leitura de ficção e poesia. Em
seus últimos anos o único livro que haveria de ler repetidamente seria o "Imitação
de Cristo". Sua vida matrimonial, que sempre fora tempestuosa, também se
desfez. Comte teve várias separações de Caroline, que não suportava os seus
fracassos e terminou por deixá-lo definitivamente em 1842.
Só e isolado, continuou a
atacar os cientistas que se recusaram a reconhecê-lo. Queixou-se de seus inimigos
aos ministros do Rei, escreveu cartas delirantes à imprensa e atormentou a
paciência de seus poucos restantes amigos. Criando demasiado inimigos na École
Polytechnique, sua nomeação como o examinador não foi renovada em 1844. Perdeu
com isto a metade de sua renda. (iria perder também a posição de assistente na
École em 1851.)
Contudo apesar de todos
estas adversidades, Comte começou lentamente a adquirir discípulos. E mais importante
para ele foi que, além de encontrar alguns discípulos franceses notáveis, tais
como o eminente intelectual Emile Littre, era o fato de que sua doutrina
positiva havia atravessado o Canal e recebera considerável atenção na
Inglaterra. David Brewster, um físico eminente, saudou-o nas páginas do Edinburgh
Review em 1838 e, o mais gratificante de tudo, John Stuart Mill transformou-se
em seu admirador, citando-o em seu System of Logic (1843) como um dos
principais pensadores europeus.
Comte e Mill se
corresponderam regularmente, e serviu a Comte não somente para refinar seus pensamentos
como também para desabafar com o filósofo inglês as tribulações de sua vida
conjugal e as dificuldades de sua existência material. Mill arrecadou entre
admiradores britânicos de Comte uma soma considerável em dinheiro e lhe enviou
como socorro para suas dificuldades financeiras.
No mesmo ano de 1844, Comte
conheceu Clotilde de Vaux, por quem se apaixonou. Ela era uma mulher de trinta
anos abandonada pelo marido, um funcionário público do baixo escalão, que havia
fugido do país depois de se apropriar de fundos do governo. Um irmão de
Clotilde que havia sido aluno de Comte na Escola Politécnica, e o convidou a ir
à casa de seus pais, onde lhe apresentou a irmã.
Comte ficou inteiramente seduzido
por ela. Sua paixão teve, porém, um desdobramento inusitado. Clotilde estva
impedida pela lei de casar-se achando-se o seu marido foragido. Auguste Comte
tinha então quarenta e sete anos, e havia se separado três anos antes de sua
mulher. Acabara de concluir seu monumental Cours de philosophie positive, e se
preparava para escrever o que pretendia que seria sua principal obra, o Système
de politique positive, da qual ele considerava o Cours de philosophie como apenas
uma introdução. Entusiasmado com a própria paixão, Auguste Comte afirma que
nada pode ser mais eficaz para o bem pensar que o bem querer, e se tornou um
abrasado feminista. Afirmava que a mulher encarnava o sentimento e portanto, em
última análise, a própria Humanidade. Buscou então seriamente associar o sexo
feminino, na pessoa de Clotilde, à obra de renovação social e moral que se impôs
completar. Clotilde tentou colaborar, através de um romance filosófico,
Wilhelmine, que ela se pôs febrilmente a escrever. Mas adoeceu de tuberculose e
veio a falecer em 1846.
Comte devotou o resto de sua
vida à memória do "seu anjo". O Système de politique positive, que
tinha começado a esboçar em 1844 e no qual completou sua formulação da
sociologia, iria transformar-se em um memorial a sua amada. Cinco anos mais
tarde, em 1851, ao publicar essa obra, dedicou-a a Clotilde, dizendo esperar
que a humanidade, reconhecida, haveria de lembrar sempre seu nome junto ao
dela.
No Système de politique
positive, Comte, voltando-se contra a doutrina do mestre Saint-Simon, defendeu a
primazia da emoção sobre o intelecto, do sentimento sobre a racionalidade; e
proclamou repetidamente o poder curativo do calor feminino para a humanidade
dominada por tempo demasiado pela aspereza do intelecto masculino. Por outro
lado, maquiou a proposta de disciplina eclesiástica de Saint-Simon criando a
Religião da Humanidade.
Quando o Système apareceu
entre 1851 e 1854, Comte escandalizou e perdeu a maioria dos seguidores racionalistas
que ele havia conquistado com tanta dificuldade nos últimos quinze anos. John
Stuart Mill e Emile Littre não aceitaram que o amor universal fosse a solução
para todas as dificuldades da época. Tão pouco aceitariam a Religião da
Humanidade da qual Comte se proclamou agora o sumo sacerdote. A observação dos
rituais múltiplos segundo o calendário anual, os detalhes da elaborada liturgia
indicavam que o antigo profeta do estágio positivo havia regressado às trevas
do estágio teológico. Comte passou a assinar suas circulares - aos novos
discípulos que conseguiu reunir - como "fundador da religião universal e
sumo sacerdote da humanidade". Tentou converter o Superior Geral dos Jesuítas
à nova fé e comparou suas circulares aos discípulos com as epístolas de São
Paulo. Fundou a Societé Positiviste, que se transformou no centro principal de
seu ensino. Os membros se cotizaram para assegurar a subsistência do mestre e
fizeram os votos de espalhar sua mensagem. As missões se instalaram, na
Espanha, Inglaterra, Estados Unidos, e na Holanda. Cada noite, das sete às
nove, exceto nas quartas-feiras quando a Societé Positiviste tinha sua reunião
regular, Comte recebia seus discípulos em sua casa em Paris: políticos,
intelectuais e operários, que lhe votavam grande respeito e veneração. Comte
estava longe do entusiasmo republicano e libertário de sua juventude. O moto da
Igreja Positiva era amor, ordem e progresso. O jovem estudante de passeata
agora pregava as virtudes do amor, da submissão e a necessidade da ordem para o
progresso social.
Em 1857, Comte, após alguns
meses de enfermidade, faleceu a cinco de setembro. Um grupo pequeno de discípulos,
de amigos, e de vizinhos seguiu seu esquife ao cemitério de Pere Lachaise. Seu
túmulo transformou-se no centro de um pequeno cemitério positivista onde estão
sepultados, perto do mestre, seus discípulos mais fiéis.
Pensamento. A contribuição
principal de Comte à filosofia do positivismo foi sua adoção do método científico
como base para a organização política da sociedade industrial moderna, de modo
mais rigoroso que na abordagem de Saint Simon. Em sua Lei dos três estados ou
estágios do desenvolvimento intelectual, Comte teorizou que o desenvolvimento
intelectual humano havia passado historicamente primeiro por um estágio
teológico, em que o mundo e a humanidade foram explicados nos termos dos deuses
e dos espíritos; depois através de um estágio metafísico transitório, em que as
explanações estavam nos termos das essências, de causas finais, e de outras
abstrações; e finalmente para o estágio positivo moderno. Este último estágio
se distinguia por uma consciência das limitações do conhecimento humano. As
explanações absolutas consequentemente foram abandonadas, buscando-se a
descoberta das leis baseadas nas relações sensíveis observáveis entre os
fenômenos naturais.
Comte tentou também uma
classificação das ciências; baseada na hipótese que as ciências tinham desenvolvido
da compreensão de princípios simples e abstratos à compreensão de fenômenos
complexos e concretos. Assim as ciências haviam se desenvolvido a partir da
matemática, da astronomia, da física, e da química para a biologia e finalmente
a sociologia. De acordo com Comte, esta última disciplina não somente fechava a
série mas também reduziria os fatos sociais às leis científicas e sintetizaria
todo o conhecimento humano.
Embora não fosse de Comte o
conceito de sociologia ou da sua área de estudo, ele ampliou seu campo e sistematizou
seu conteúdo. Dividiu a Sociologia em dois campos principais: Estática social,
ou o estudo das forças que mantêm unida a sociedade; e Dinâmica social, ou o
estudo das causas das mudanças sociais. Dando nova roupagem às idéias de Hobbes
e Adam Smith, afirmou que os princípios subjacentes da sociedade são o egoísmo
individual, que é incentivado pela divisão de trabalho, e a coesão social se mantém
por meio de um governo e um estado fortes.
Como Saint Simon, queria a
administração real do governo e da economia nas mãos dos homens de negócios e dos
banqueiros, porém deu um toque pessoal seu, com origem em sua paixão por
Clotilde, dizendo que a manutenção da moralidade privada seria competência das
mulheres como esposas e mães. Dando ênfase à hierarquia e obediência, rejeitou
a democracia, sustentando que o governo ideal seria constituído por uma elite
intelectual. Seu conceito de uma sociedade positiva está no seu Système de politique
positive ("Sistema de Política Positiva").
Como Saint-Simon, ele veio a
adotar a idéia de que a organização da igreja católica romana, divorciada da
teologia cristã, podia fornecer um modelo estrutural e simbólico para a
sociedade nova, idéia que, no entanto, fora uma das causas alegadas para seu
rompimento com o mestre. Comte substituiu a adoração a Deus por uma "religião
da humanidade"; um sacerdócio espiritual de sociólogos seculares guiaria a
sociedade e controlaria a instrução e a moralidade pública. Comte viveu para
ver sua obra comentada extensamente em toda a Europa. Muitos intelectuais
ingleses foram influenciados por ele, e traduziram e promulgaram seu trabalho.
Seus devotos franceses tinham aumentado também, e mantinha uma correspondência
volumosa com sociedades positivistas em todo o mundo.
A habilidade particular de
Comte era como um sintetizador das correntes intelectuais as mais diversas. Tomou
idéias principalmente dos filósofos modernos do século XVIII. De Saint-Simon e
outros reformadores franceses menores Comte tomou a noção de uma estrutura
hipotética para a organização social que imitaria a hierarquia e a disciplina
existente na igreja católica romana. De vários filósofos do Iluminismo adotou a
noção do progresso histórico e particularmente de David Hume e Immanuel Kant tomou
sua concepção de positivismo, ou seja, a teoria de que o Teologia e a Metafísica
são modalidades primárias imperfeitas do conhecimento e que o conhecimento
positivo é baseado em fenômenos naturais e suas propriedades e relações como
verificado pelas ciências empíricas, tese Kantiana por excelência.
O mais importante realmente
provém de Saint-Simon, que havia enfatizado originalmente a importância crescente
da ciência moderna e o potencial da aplicação de métodos científicos ao estudo
e à melhoria da sociedade. De Saint-Simon é originalmente a idéia de que a
finalidade da análise científica nova da sociedade deve ser amelhorativa e que
o resultado final de toda a inovação e sistematização na nova ciência deve ser
a orientação do planeamento social. Comte também pensou que era necessário
implantar uma ordem espiritual nova e secularizada a fim de suplantar o
sobrenaturalismo ultrapassado da teologia cristã.
Comte seguiu Saint-Simon
quando considerou a necessidade de uma ciência social básica e unificadora que
explicasse as organizações sociais existentes e guiasse o planeamento social
para um futuro melhor. Na sua hábil sistematização Comte chamou esta nova
ciência "Sociologia", pela primeira vez. Temerariamente, porém, foi
mais adiante que seu mestre quando afirmou que os fenômenos sociais poderiam
ser reduzidos a leis da mesma maneira que as órbitas dos corpos celestes haviam
sido explicadas pela teoria gravitacional quase trezentos anos antes.
OBJETO DESTE DISCURSO
1. O conjunto dos
conhecimentos astronômicos não deve mais ser considerado isoladamente, como até
aqui, mas constituir de ora avante apenas um dos elementos indispensáveis do
novo sistema indivisível de filosofia geral que hoje atingiu finalmente sua
verdadeira maturidade abstrata, depois de ter sido gradualmente preparado pelo
concurso espontâneo dos grandes trabalhos científicos dos três últimos séculos.
Em virtude desta íntima conexidade, ainda pouco compreendida, a natureza e o
destino deste Tratado não poderão ser devidamente apreciados se este preâmbulo
imprescindível não for consagrado sobretudo à definição conveniente do
verdadeiro e fundamental espírito desta filosofia, cuja instalação universal
deve ser, no fundo, o objetivo precípuo de semelhante ensino. Como ela se
distingue principalmente pela continua preponderância, a um tempo lógica e
científica, do ponto de vista histórico ou social, devo antes de tudo, para
melhor caracterizá-la, lembrar de modo sumário a grande lei que estabeleci, em
meu Sistema de Filosofia Positiva, sobre a evolução total da Humanidade, lei à
qual os nossos estudos astronômicos hão de recorrer com freqüência.
O funcionamento da sociedade, para Comte, obedeceria a diretrizes predeterminadas para promover o bem-estar do maior número possível de indivíduos. Além de uma reformulação geral das ciências e da organização sociopolítica, o filósofo planejou uma nova ordem espiritual, inspirada na hierarquia e na disciplina da Igreja Católica, que considerava muito eficientes. A nova doutrina, porém, se dissociava totalmente da teologia cristã, que Comte rejeitava por se basear no sobrenatural, e não no materialismo científico. No fim da vida, ele chegou a preconizar a construção de templos positivistas, onde a humanidade, e não a divindade, seria venerada. O filósofo via a humanidade como uma entidade una, que chamou de Grande Ser.
Auguste
Comte, o homem que quis dar ordem ao mundo
Extraído
do site: http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/auguste-comte-423321.shtml?page=0#
Pai do positivismo, ele
acreditava que era possível planejar o desenvolvimento da sociedade e do
indivíduo com critérios das ciências exatas e biológicas
Auguste Comte
O nome do pensador francês
Auguste Comte (1798-1857) está indissociavelmente ligado ao positivismo,
corrente filosófica que ele fundou com o objetivo de reorganizar o conhecimento
humano e que teve grande influência no Brasil. Comte também é considerado o
grande sistematizador da sociologia.
O filósofo viveu num período
da história francesa em que se alternavam regimes despóticos e revoluções. A
turbulência levou não só a um descontentamento geral com a política como a uma
crise dos valores tradicionais. Comte procurou dar uma resposta a esse estado
de ânimo pela combinação de elementos da obra de pensadores anteriores a ele e
também de alguns contemporâneos, resultando num corpo teórico a que chamou de
positivismo. "Ele reviu as ciências para definir o que, nelas, decorria da
realidade dos fatos e permitia a formulação de leis naturais, que orientariam
os homens a agir para modificar a natureza", diz Arthur Virmond de
Lacerda, professor da Faculdade Internacional de Curitiba.
Um dos fundamentos do
positivismo é a idéia de que tudo o que se refere ao saber humano pode ser
sistematizado segundo os princípios adotados como critério de verdade para as
ciências exatas e biológicas. Isso se aplicaria também aos fenômenos sociais,
que deveriam ser reduzidos a leis gerais como as da física. Para Comte, a
análise científica aplicada à sociedade é o cerne da sociologia, cujo objetivo
seria o planejamento da organização social e política.
Planejamento social traria o bem-estar
O funcionamento da sociedade, para Comte, obedeceria a diretrizes predeterminadas para promover o bem-estar do maior número possível de indivíduos. Além de uma reformulação geral das ciências e da organização sociopolítica, o filósofo planejou uma nova ordem espiritual, inspirada na hierarquia e na disciplina da Igreja Católica, que considerava muito eficientes. A nova doutrina, porém, se dissociava totalmente da teologia cristã, que Comte rejeitava por se basear no sobrenatural, e não no materialismo científico. No fim da vida, ele chegou a preconizar a construção de templos positivistas, onde a humanidade, e não a divindade, seria venerada. O filósofo via a humanidade como uma entidade una, que chamou de Grande Ser.
Comte formulou
uma lei histórica de três estágios. Segundo essa lei, o pensamento humano
partiu de um estágio teológico, quando recorria às idéias de deuses e espíritos
para explicar os fenômenos naturais, e passou para um estágio metafísico,
caracterizado por fundamentar o conhecimento em abstrações - como essências,
causas finais ou concepções idealizadas da natureza. De acordo com Comte, a
humanidade só alcançaria plenitude intelectual ao chegar ao estágio positivo,
que pressupõe a admissão das limitações do entendimento humano. Para ele, a
razão não é capaz de operar a não ser pela via da experiência concreta. Todo
esforço da ciência e da filosofia deveria se restringir, portanto, a encontrar
as leis que regem os fenômenos observáveis.
Antes de Comte, a sociologia já havia dado os primeiros passos, mas foi ele quem a organizou como ciência. O pensador a dividiu em duas áreas: estática social e dinâmica social. A primeira estuda as forças que mantêm a sociedade unida, enquanto a segunda se volta para as mudanças sociais e suas causas. A estática social se fundamenta na ordem e a dinâmica no progresso - daí o lema "ordem e progresso", que figura na bandeira brasileira por inspiração comtiana (leia quadro acima). Conhecidos a estrutura e os processos de transformação da sociedade, seria possível, para o pensador, reformar as instituições e aperfeiçoá-las. "As leis sociológicas permitem planejar o futuro porque indicam critérios de atuação política", diz Virmond de Lacerda.
Antes de Comte, a sociologia já havia dado os primeiros passos, mas foi ele quem a organizou como ciência. O pensador a dividiu em duas áreas: estática social e dinâmica social. A primeira estuda as forças que mantêm a sociedade unida, enquanto a segunda se volta para as mudanças sociais e suas causas. A estática social se fundamenta na ordem e a dinâmica no progresso - daí o lema "ordem e progresso", que figura na bandeira brasileira por inspiração comtiana (leia quadro acima). Conhecidos a estrutura e os processos de transformação da sociedade, seria possível, para o pensador, reformar as instituições e aperfeiçoá-las. "As leis sociológicas permitem planejar o futuro porque indicam critérios de atuação política", diz Virmond de Lacerda.
A concepção planejada das
reformas sociais que o filósofo julgava necessárias não era compatível com a democracia,
imprevisível por natureza, e por isso Comte a rejeitou. Ele acreditava que a
ciência positiva seria o fundamento da fraternidade entre os homens, mas a
responsabilidade por conduzir o aperfeiçoamento das instituições estaria
restrita a uma elite de cientistas.
O filósofo via todas as
sociedades constituídas por núcleos permanentes, como a família e a
propriedade, que devem promover o progresso. O positivismo compara a sociedade
a um organismo biológico, no qual nenhuma parte tem existência independente.
Num estágio positivo, próximo da perfeição, não haveria lugar para o
individualismo, apenas para o desenvolvimento da solidariedade e do altruísmo
(termo cunhado por Comte) de cada um em favor da coletividade.
O pensamento de Comte foi
alvo de desconfiança e até de escárnio - em especial a criação da religião da
humanidade. Mas o positivismo teve grande influência em seu tempo e peso
decisivo no surgimento de correntes de pensamento futuras, como o
evolucionismo.
Como Comte tinha a ordem na
conta de valor supremo, para ele era fundamental que os membros de uma
sociedade aprendessem desde pequenos a importância da obediência e da
hierarquia. A imposição da disciplina era, para os positivistas, uma função
primordial da escola.
Segundo Comte, a evolução do
indivíduo segue um trajeto semelhante à evolução das sociedades. Assim, na
infância passa-se por uma espécie de estágio teológico, quando a criança tende
a atribuir a forças sobrenaturais o que acontece a seu redor. A maturidade do
espírito seria encontrada na ciência. Por isso, na escola de inspiração
positivista, os estudos científicos prevalecem sobre os literários. O filósofo
acreditava ainda que todos os seres humanos guardam em si instintos tanto
egoístas quanto altruístas. A educação deveria assumir a responsabilidade de
desenvolver nos jovens o altruísmo em detrimento do egoísmo, mostrando a eles
que o objetivo existencial mais nobre é dedicar a vida às outras pessoas.
"A educação positivista visa a informar o aluno sobre a ordem - isto é,
como o mundo funciona - e formar seu caráter, tornando-o mais bondoso",
diz Virmond de Lacerda. O pensamento de Comte tinha forte aspecto empirista,
por levar em conta apenas os fenômentos observáveis e considerar anticientíficos
os estudos dos processos mentais do observador.
Na educação, isso acarreta
ênfase na aferição da eficiência dos métodos de ensino e do desempenho do
aluno. No século 20, a psicologia comportamental aperfeiçoaria ao máximo esses
procedimentos, com experimentos e testes aplicados em grande escala.
O projeto sociopolítico de
Comte pressupunha uma evolução ordeira da sociedade, incompatível com
revoluções e mudanças bruscas. Curiosamente, no Brasil os ideais positivistas
serviram para alavancar uma troca de regime, com a proclamação da República. O
aparente paradoxo se explica, em parte, pelo fato de a influência positivista
ter resultado em pensamentos muito diversos no Brasil, conforme se combinou com
outras correntes ideológicas. Nenhum setor teve maior presença da ideologia
comtiana do que as Forças Armadas, de onde saiu o vitorioso movimento
republicano e a idéia de adotar o lema "ordem e progresso". Várias
das medidas governamentais dos primeiros anos da República tiveram inspiração
positivista, como a reforma educativa de 1891 e, no mesmo ano, a separação
oficial entre Igreja e Estado. O positivismo ficou de tal forma conhecido no
Brasil que o prenome de Comte foi aportuguesado para Augusto e a corrente
filosófica tornou-se tema de um samba de Noel Rosa e Orestes Barbosa. A canção,
intitulada Positivismo e lançada em 1933, termina com os versos: "O amor
vem por princípio, a ordem por base/O progresso é que deve vir por
fim/Desprezaste esta lei de Augusto Comte/E foste ser feliz longe de mim".
Para
pensar
O modelo de escola rígida e
autoritária que os positivistas defendiam está ultrapassado, mas vale a pena
refletir sobre as idéias de Comte. Ele acreditava que a solidariedade era um
impulso natural no ser humano e que a escola é um dos órgãos sociais
responsáveis por promovê-la. Numa época individualista como a atual, você já
pensou em conversar com seus alunos sobre a importância de sempre ter em mente
que todos fazemos parte de uma sociedade?

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